Apologia do Império

Por Sean Purdy,  Doutor em história pela Universidade Queen’s, no Canadá, e professor de história dos Estados Unidos na Universidade de São Paulo.

Niall Ferguso

Colosso: ascensão e queda do império americano - Niall Ferguso

Até a década de 1960, historiadores americanos raramente usavam a palavra “imperialismo”. Afinal, os Estados Unidos não tinham colônias formais e, da perspectiva desses estudiosos, sua intervenção externas eram sempre positivas e progressistas: o país espalhava a democracia e a liberdade pelo mundo.  

Foi quando surgiu, na esteira dos movimentos sociais do período, especialmente o de oposição à Guerra do Vietnã, uma série de estudos críticos a essa visão. Historiadores como William Apleman Williams mostram que, a partir de meados do século XIX, a política externa americana não só poderia ser caracterizada como imperialismo, como deveria ser interpretada levando em conta a dominação econômica exercida pelo país, as diversas invasões no Caribe e na América Latina, as políticas implementadas após a Segunda Guerra Mundial e o intervencionismo durante a Guerra Fria. Além disso, os Estados Unidos exercem um “imperialismo interno”, com a conquista dos povos indígenas do continente ao longo dos séculos XVIII e XIX.

No entanto, políticos americanos ainda relutam em usar a palavra “imperialismo” para descrever as atuais guerras e intervenções na Ásia e no Oriente Médio, já que o termo não soa bem a um eleitorado que ainda acredita nas promessas de liberdade e democracia pregadas pela ideologia dominante no país.

Nesse contexto, surge Niall Fergunson, um historiador econômico escocês que defende a ideia de que os Estados Unidos precisam assumir seu papel de império liberal. Ele critica com veemência os líderes políticos e econômicos do país pela falta de “garra moral” para cumprir essa responsabilidade e, embora lamente a face negativa do imperialismo, crê que o fenômeno pode ser positivo, já que traz a abertura do comércio internacional, ampliação dos investimentos em países em desenvolvimento, migração de mão de obra e ascensão de governos não corruptos.

Baseado exclusivamente em uma relação ampla de fontes secundárias, Colosso é bem escrito e altamente coerente do ponto de vista interno, já que Ferguson nunca deixa de defender os impérios, em especial a Inglaterra dos séculos XVII a XIX e os Estados Unidos a partir da década de 1940.

Em oito capítulos sucintos, o autor desenha a trajetória de ascensão e queda do império americano no pós-guerra. Sua narrativa completa a consolidação do liberalismo na economia mundial, as várias intervenções militares americanas, a crescente dependência do país em relação ao petróleo que vem do Oriente Médio e, principalmente, a relutância dos Estados Unidos em assumir seu papel de império , temendo, por exemplo, a reprovação por parte da opinião pública contrária a uma política intervencionista. Ferguson ainda analisa o fracasso americano na reconstrução do Iraque e os problemas econômicos decorrentes dos sistemas supostamente caros de saúde pública e de seguridade social.

Colosso, com a clara intenção de defender o imperialismo histórico e as atuais intervenções americanas. Em suas argumentações, Ferguson ignora uma vasta historiografia que detalha os horrores da ação imperial e os ferozes debates teóricos existentes sobre a natureza da crise econômica capitalista e do sucesso das políticas de intervenções externas.

Ele elogia, por exemplo, a construção da hegemonia britânica na economia mundial do século XIX, citando o excelente livro Holocausto coloniais, do historiador Maike Davis. No entanto, Ferguson não menciona que o tema da obra de Davis são as devastadoras ondas de fome provocadas pelo imperialismo, responsáveis pela morte de milhões de pessoas ao redor do mundo, inclusive meio milhão de nordestinos brasileiros na década de 1870.

Da mesma forma, sua receita neoliberal para continuar bancando o império americano – cortes no estado de bem-estar social e desregulamentação financeira – está sendo duramente criticada por muitos estudiosos, inclusive o ganhador do Prêmio Nobel de Economia  Paul Krugman, para quem os argumentos de Ferguson têm “estilo”, mas não demonstram “compreensão da substancia”. Vale lembrar que essas políticas econômicas resultaram na crise financeira de 2008, cujas consequências desastrosas se fazem sentir ainda hoje.

De fato, como disse o historiador Robin Blackburn, Ferguson ” é seduzido pelo romance e pela retórica do império”, sem entender “sua logística e seu raciocínio econômico”, tampouco os resultados da política imperialista para aqueles que sofrem com ela.  

Fonte: revista Históriaviva, editora Duetto, ano VIII – nº 95, pág. 78 e 79

   

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